domingo, 15 de novembro de 2009

Off

Não sei.
Não vou escrever... talvez devesse. Mas, não sei.
Escrever assim para quê?
Não há sentido. Escrever para si próprio...é tão, tão ambiguamente prova de carência. Carência de si mesmo, inclusive.
Por isso, resolvi escrever para você.
Vamos caminhando enquanto você me lê. Prefiro que você caminhe. Parada você vai dormir e eu seria obrigada a cantar para embalar seu sono. E esqueceria da minha dor.
Mas, o que eu estou dizendo? A dor é só minha e não há motivo para compartilhá-la.
Sei, sei o que você vai me dizer... definitivamente, discordo!
Apenas olhe para mim e diga que nada permanece e que os medos cansam da gente e vão embora. Precisam assombrar outras mentes.
Diga... gosto você me diz que o sol brilha acima das nuvens e todas aquelas coisas clichês que aquecem meu coração.
Quero caminhar de mãos dadas de novo, combinando o presente de Natal. Eu preciso acreditar em você.
Faz tanto tempo que minha mão cabia, pequena, entre seus dedos e o mundo se fechava ali. Seguro, forte, belo.
Hoje... ah! hoje eu não sei quem sou e sofro com isso. Eu queria lhe dar orgulho, mas apenas sei dizer e escrever Não sei.
Um dia você vai me perdoar? Acredito que sim. O amor, nesse caso, é infinito e eu enxergo isso nos seus olhos.
Eu gosto de ouvir sua voz. Mas, a respiração entrecortada me tortura e eu fujo. De mim, inclusive.
Vou caminhando. Quem sabe, quando eu mesma me reencontrar, possa ser uma referência que diminua sua aflição. Enquanto isso, quebro meus espelhos. Não posso mais me ver, já que não consigo me encontrar.
Eu amo você.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Hoje

Hoje?
Hoje sou Ana Cristina César, antes de se jogar de sua janela.
Quero também eu me jogar.No tempo. Mergulhar na fossa.
Não quero voltar.

Hoje?
Hoje sou Florbela Espanca, dizendo em sonetos que quero teus lábios beijar.
E hei de poetizar sem que nada fique doendo em meu coração.
Não quero jogar.

Hoje?
Hoje sou Silvia Plath, escrevendo as dores do marido estranho que foi seu amante sedutor e depois seu próprio degolador.
Não quero sonhar.

Hoje?
Hoje sou Cecília Meirelles a não reconhecer minhas mãos que não eram assim, nem assadas...
Nem poeta, nem triste.
Não quero cantar.

Hoje?
Hoje sou Marina, sou Silva, sou Nara e nada, nem garota, nem fantástica.
Amarga.
Não quero saltar.

Hoje?
Hoje fiquei a pensar quem não sou, pois se tantas eu fui, sem nunca ter sentido é porque havia
um navio perdido onde tentei navegar.
Não quero nadar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Ode a você.



Você tem uma forma diferente de se relacionar com o mundo. Eu gosto disso.


E tal como nos livros de realismo fantástico, em que mundos tão diferentes interagem entre si, vamos convivendo.


É engraçado porque nem sempre tem muita lógica nos sentimentos. Eu disse que éramos diferentes e você perguntou por qual motivo eu gostava de você.


Nem quis responder. Será que você acreditaria?

Imagino a vida como um espiral parecida com as galáxias que não conhecemos, mas instintivamente sonhamos como são.


Eu não queria mais escrever. Havia perdido o tino.


Mas, a vontade renasceu. E olha que consegui dominar o Mr. Hyde que há dentro de mim.

Não. Você não vai entender o porquê escrevi sobre o Mr. Hyde. Nem quero que você entenda.


Aliás, porque TEM que haver entendimentos... não... vamos sentir.


Eu sonhei dia desses que eu tinha 15 anos de novo. E, de novo, eu sentia o vento nos meus cabelos enquanto eu caminhava rumo à Estação.

Lá o trem parou novamente. E eu entrei. Apertei a mão do meu pai. Exatamente como no dia em que viajamos para a casa de uma tia. Mas, naquele dia, eu tinha três anos.

No meu sonho as idades se confundiram. E eu vi seu rosto na janela. E acenei.

Talvez eu nem voltasse.

Eu não quis partir. No entanto, o apito do trem e a saudade de algo que não vivi não me deixou outra opção.

E a solidão bateu no meu peito novamente.

Daí eu não resisti.

Morri. Frente a um espelho que refletia a sua alma, cuja plenitude eu não pude conhecer.

domingo, 4 de outubro de 2009

Duvido, logo existo.



Eu confesso.

Com certeza foi naquele domingo que entardeceu preguiçosamente que eu tive um pouco de felicidade safada. Pouco. Porque felicidade demais gera estragos. Na vida da gente e na dos outros.

Já ouvi dizer que a amizade é a forma mais sublime de amor. Já li que amor a gente não explica. Li também que amor é uma coisa, amizade é outra, desejo é outra, paixão é outra, sexo é outra...

E penso que se é assim, nosso coração, nosso cérebro devem ser imensos fichários que ficam abrindo suas pastas e documentos de acordo com as pessoas que vemos ou falamos.

Agora é o fulano de tal, abre-se a pasta do amor.

Agora a beltrana, e vem a amizade....

Passou um ser bonito e lá vem o desejo...

Ah! Talvez seja mais simples que isso. Talvez não.

O fato é que nos relacionamos com o outro e com nossas insatisfações e expectativas também. Mesmo que um relacionamento seja composto por duas pessoas, sempre será um triângulo amoroso: Eu, eu mesmo e o outro.

Isso que eu chamo de Ménage à trois dos Neuróticos. hehe

De qualquer forma, amamos. Por mais enrolado e controverso que isso seja.

Faço um curso sobre pedagogia histórico-crítica e me pergunto como é o amor pela visão materialista... um dia vou dar outro berro como fiz na sexta-feira em que não concordei com a crítica à antropologia e ei de me rebelar. Quero amar sempre! De forma quase hegeliana!!! Dialética, mas idealista... não sei amar materialistamente (da forma como o materialismo dialético se apresenta!)

Eu quero a visão romântica, sacana (oba!), irracional (ou quase)... me arrepia o dogma religioso, mas arrepia-me mais o dogma filosófico.

E tudo isso me angustia e se funde como se fosse uma grande massa em meu peito e minha garganta, que arde no meu estômago. E eu percebo que não sei ver. Não sei ler.

Para uma historiadora, isso é um grande problema.

Eu sei apenas sentir.

E sinto magistralmente e finjo ser mais racional porque aprendi a ser hipócrita e a dizer que o materialismo histórico é a cura dos males.

Mas, eu sou idealista. Hegeliana!

E o que tem isso a ver com o amor?

Talvez, eu seja o mais hipócrita dos seres porque a filosofia me multifacetou em pessoas que não sabem fazer heteronômios. E isso me deixa ansiosa e estática.

Daí eu escrevo.

E busco respostas em livros que só me devolvem mais perguntas.

E não devia ser assim.

Eu queria apenas crer.

Mas, a mim só restou duvidar!

sábado, 5 de setembro de 2009

Fernando Pessoa - amo!

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Não era para ser resposta


Não era para ser resposta porque não havia dúvida sobre o caminho a seguir.

Mas, a terna chama que clareia os túneis nos permitem refletir livremente acerca de quem somos e o que queremos.

Às vezes uma história é linda por ter sido vivida e produzido frutos.

Noutras, a beleza é justamente o caráter imaginário, por vezes platônico que nos permitem alçar a criaturas inteligíveis.

E há, ainda, as que florescem como begônias em meio a sentimentos diversos e, assim, enfeitam nossa alma.

Não interessa se, em cada um desses casos, as vias forem de mão única, ou se admitem dois passageiros no mesmo sentido. O caso é que as histórias se criam involutariamente e carregam seus destinos autônomos para dentro de um universo próprio, cheio de constelações, como se fosse possível uma galáxia parir outra.

Os porquês desses universos paralelos, não sabemos. Jamais racionalizaremos. Mesmo porque, o mais desafiador da existência deles é justamente não termos certeza se existem mesmo, ou se são meros frutos de nossa grandiosa e fantástica imaginação, sempre disposta a ser mais grandiosa que a realidade.

domingo, 23 de agosto de 2009

Sou coruja!

Essa menina linda na foto de primeira página do Jornal da Cidade, de Bauru, é minha cria!!! Minha Filha de 10 anos tem um blog para poder expressar suas ideias e pensamentos. Na parte interna há um caderno para crianças que a Náti também é a capa. Foi ali que saiu a entrevista feita com ela sobre crianças que navegam na internet.
Para quem quiser conhecer melhor o blog: http://pensamentosdeumagarotinha.blogspot.com

Ai! Que orgulho!